Ela bem que queria ser uma mulher normal e gostar apenas de sapatos! Assim sobraria mais dinheiro para trocar de carro. É sempre assim: levanta atrasada, após a briga entre anjinhos e diabinhos que discutem se deve tomar café ou dormir mais um pouco, vendo vencer, mais uma vez, o que estava de vermelho. Abre o closet, escolhe a roupa e... não tem O sapato que combine. Isso é o limite a que seus nervos podem chegar! Torna-se urgente passar no shopping, atualizar sua sapateira. Sabe que nunca volta com apenas um par! Sim! Porque quando chega à loja na busca DO sapato ideal, todos os pares se curvam, a aplaudem e depois realizam danças sedutoras diante dos seus olhos, com músicas hipnóticas, entoando mantras de “estarei sempre aos seus pés, para isso fui criado, sou a perfeição dos designers-sapateiros!” É uma profusão de dúvidas: o lacinho deste não combina com o detalhe daquela blusa, mas fica perfeito com o daquela outra saia. O tom não é o mesmo do botão, mas é o mesmo da micro-flor que estampa o tecido, que é o mesmo da mini-pedra do brinco! Porém nada supera o prazer de desfilar com quase todo o estoque da loja, para decidir por apenas cinco pares. Vai ao céu e volta.
Mas não, ela não gosta só de sapatos. Ela teima em adorar vinhos! Fora o fato de ter que dividir seu orçamento e trocar uns pares por alguma garrafa, este não chega a ser um problema. Às vezes fica em dúvida sobre qual vinho abrir para tal pessoa ou prato, mas ao se decidir por um já tem em mente o dia em que abrirá o que fica na adega. Sua relação com as garrafas é mais harmônica, menos temerosa. Há uma cumplicidade entre ela e as safras, cortes e cepas. Há uma concordância silenciosa. Ao adentrar numa wine store ou ao abrir sua adega não escuta mantras nem assiste a danças sinuosas ou sedutoras. Apenas um silêncio daqueles que tem com alguns poucos amigos: o silêncio de quem sabe estar acompanhado, o silêncio que não precisa das palavras, o silêncio do não constrangimento. Há uma postura respeitosa das garrafas, como se confiassem absolutamente na escolha que ela fará. Permitem-lhe o tempo necessário para a sua reflexão e escolha, na certeza de que a que parte honrará as que ficam. Não são garrafas abandonadas, são apenas garrafas adiadas. Vai ao céu e volta.
Entre sapatos e vinhos, dividida entre paixões, seu mundo é feito por escolhas cotidianas, que vão da luxúria à contemplação. Seja pela mão do artesão que trança a trama do couro do sapato que calça hoje, seja pela sabedoria que transformou a uva no vinho que leva pra casa, estes são detalhes reunidos na tela da sua existência, na obra ainda incompleta que é o quadro de sua vida. No táxi, a caminho da oficina de onde mais uma vez buscará seu carro, ela pensa: com que roupa vou amanhã? O vinho ela já sabe.



